segunda-feira, 15 de março de 2010

#12

Ligia é uma menina calma e comportada, que
no auge de seus 19 anos nunca foi de dar
trabalho aos seus pais, mas chora todas as noites abraçada
com seus bichos de pelúcia, lendo cartas de alguém
que ela jamais vai esquecer.
Ela paga sua tão sonhada faculdade de moda com o seu
exemplar trabalho de recepcionista em um consultório dentário
e quando tem tempo, gosta de ir a beira mar
observar todos os barcos, como se cada um
fosse um apaixonado casal de namorados. Mas de uns meses pra cá,
Ligia tem faltado suas aulas na faculdade
para procurar um novo emprego. De tão dedicada e persistente,
ela trancou sua tão sonhada faculdade de moda para juntar
todo o seu dinheiro e ser uma linda vendedora de loja.
Agora sem tempo para mais nada e com dois empregos, fazendo todas
as horas extras possíveis, mas feliz, pensa em um dia abandonar
o Rio de Janeiro e ir viver em Porto Alegre.
E se perguntam, ela diz que é, amor!

sábado, 13 de março de 2010

#11

Miguel era um garotinho de 8 anos
que adorava subir em árvores, correr
no quintal de braços abertos, assustar as aves
só pra vê-las voar e admirar a beleza das borboletas...
- Miguel, o que você vai ser quando crescer? - perguntou sua mãe.
- Vou ser um pássaro, mãe!
Até com os seus 17 anos de idade as respostas eram as mesmas,
em qualquer lugar.
- E aí Miguel, já tirou aquele sonho besta da cabeça? - perguntou um amigo.
- Que sonho besta?
- Como se não soubesse. Esse de ser um pássaro!
E todos na sua roda de amigos morreram de rir.
Em casa não era diferente, todos achavam que essa
história de ser um pássaro já tinha passado dos limites.
Miguel até chorou algumas vezes, mas nada que abalasse seu sonho.
Quando completou 23 anos de idade, Miguel reuniu todos que não acreditavam
nele em uma praça de sua cidade, e sumiu.
Quando o relógio bateu 11h: 00min em ponto,
no alto da praça passou um avião com uma faixa que dizia...
"Eu, pássaro Miguel, perdoo a todos vocês que não acreditaram em mim."

quarta-feira, 10 de março de 2010

#10

Ana vê filmes alternativos na sala,
enquanto pinta as unhas dos pés de vermelho,
só para combinar com sua bolsa que ninguém
jamais elogiou. Ela sabe que unhas vermelhas
nos pés não é bonito, e que sua bolsa não
é das mais legais, mas naquele dia de chuvas
de Março, em que as gotas batiam em sua janela
como se quisessem entrar, Ana estava feliz
e nada a impediria de ir onde estivesse afim.
Mas isso foi há 9 meses atrás, numa sexta-feira,
às 19h:38min, antes de Júlia nascer.
Agora aos 16 anos, Ana é mãe, perdeu todos
os seus sonhos e não tem mais tempo
para pintar as unhas, de qualquer cor que seja.

segunda-feira, 8 de março de 2010

#9

As luzes que iluminam o céu, horas depois, não deixam de iluminar seu vestido, tão colorido quanto o sorriso surpreso pelo encontro, que ao longo do tempo se tornou comum em lugares inesperados. E eu só penso em transformar todas essas cores em canções que falem de nós dois. E mais nada, meu bem. Mais nada.




quinta-feira, 4 de março de 2010

#8

Em 1989, sempre se soube de um rapaz que tentava se matar,
numa pequena cidadezinha de Minas Gerais.
Ele tentou a primeira vez e o bombeiro César o impediu,
tentou a segunda e novamente estava lá o bombeiro César.
- Conheço histórias como a sua, rapaz. Você quer é chamar
a atenção da TV - Disse César.
oito meses depois, Pedro um escritor jovem e nada famoso
andava pela ponte que levava a cidade vizinha...
- O que faz aí, homem? quer morrer, é? - Disse Pedro.
Mais uma vez era o tal rapaz querendo chamar atenção.
- Pois é, amigo...
Pedro sempre achou a morte (não importando como seja) bem natural.
Mesmo assim nunca pensou em se matar.
- E qual é o motivo pra querer se jogar daí?
- Perdi as esperanças, amigo. Perdi as esperanças!
(Mentiu o rapaz, que só queria chamar atenção.)
- Eu vou te livrar dessa dúvida. Quando se perde as esperanças,
perde-se tudo!
E assim, sem nem que o rapaz mentiroso conseguisse se explicar,
Pedro o empurrou de lá, levando o rapaz a óbito.
Era feriado prolongado na cidade, às ruas estavam vazias. Por isso
até hoje todos acreditam que o rapaz finalmente deu fim a sua vida.
Já o bombeiro César culpasse por ter duvidado do rapaz.

quarta-feira, 3 de março de 2010

#7


O telefone custa a tocar, e quando toca não é você. Eu desisto de tentar insistir. Porque depois de algum tempo o melhor mesmo é deixar pra lá. Fica com o tempo a responsável decisão do que pode, ou não, acontecer,
e enquanto isso eu deixo de escolher as datas, as roupas e os planos.

Escolho a distância como única opção pra nós dois.

terça-feira, 2 de março de 2010

#6


Isabela é assim, sozinha, calada, ama os livros
e algumas bandas gringas que gritam quase o tempo todo.
Troca o dia pela noite, só pra dormir bastante
e não ver ninguém pela manhã. Ela não gosta do sol, mas também
não gosta da chuva, gosta é do vento e de suco de laranja
com duas pedras de gelo.
Ultimamente ela tem amado piquenique aos domingos e odiado
a grama verde e bonita, só porque ela faz coçar.
Isabela ama os animais, mas só tem um peixe e um gato gordo.
Tem amigos que não são amigos dela e dizem "te amo", diz que
é feliz e não é, e também gosta de mulher.
Nos últimos meses ela tem gostado de Ricardo, que gosta de Maria,
que por sua vez, não gosta de ninguém.
Isabela é assim, acha estranho tentar fazer alguém esquecer
alguém ao invés de tentar ajudar a aproximar.
Pois é, essa é Isabela. Mas bem que podia dar um nome ao seu
verdadeiro amigo. O gato gordo!